O clima da Terra está mudando rapidamente, muito mais rápido do que pensavam os especialistas.
Não há dúvidas sobre o que está causando isso: o aquecimento da atmosfera, como resultado das emissões de gases de efeito estufa, principalmente CO2, da queima de óleo, carvão e gás natural.
A Terra já aqueceu 0,8°C ao longo dos últimos dois séculos. Isto já seria suficiente para provocar uma elevação do nível dos mares de cerca de dois metros nos próximos séculos. Ninguém pode deter isto. Centenas de milhões de pessoas serão obrigadas a se deslocar, milhões de hectares de terra para plantio se perderão, áreas urbanas terão de ser evacuadas. Os povos do Sul, os menos responsáveis, serão os mais afetados.
Os governos têm ignorado os avisos. Vinte e três anos após a Rio Eco-92, as emissões globais anuais de gases de efeito estufa estão aumentando duas vezes mais rápido do que nos anos 1990. Apesar da crise econômica!
Nesse ritmo, o aquecimento global ao final do século será não de 2°C, mas de 6°C. Isso levaria a desastres terríveis, totalmente inimagináveis.
COP21: Poeira nos olhos do povo, agrados aos chefes
A urgência é imensa, porque as medidas necessárias têm sido proteladas por décadas.
Os países “desenvolvidos” devem começar imediatamente a reduzir as emissões a pelo menos 10% ao ano até eliminá-las completamente em torno de 2050. Os principais países emergentes devem segui-los rapidamente. Outros países ainda possuem uma margem, mas esta se reduz rapidamente.
Se nada mudar, a quantidade de óleo, carvão e gás natural que ainda pode ser queimada sem que se exceda um aquecimento global de 2°C terá sido consumida em 2030.
A 21a conferência das Nações Unidas sobre o clima (a COP21) será realizada em Paris em Dezembro de 2015. Os líderes políticos estão tentando nos enganar dizendo que desta vez eles concluirão um acordo “ambicioso”.
É verdade que eles podem fechar um acordo para salvar as aparências. Mas o que é certo é que este acordo será totalmente inadequado ambientalmente e socialmente muito injusto. Seu conteúdo é determinado com antecedência pelos compromissos dos principais poluidores: Estados Unidos, União Europeia, China, Japão, Austrália e Canadá. Nessa base, o aquecimento da terra será de pelo menos 3,6 e 4 ° C até o final do século.
Esses compromissos foram negociados com os lobbies industriais e financeiros e estão adaptados aos seus interesses. As multinacionais estão esfregando as mãos com a perspectiva de novos mercados que se abrem: os mercados de carbono, tecnologias “verdes”, compensação florestal, captura-sequestro, de adaptação aos efeitos do aquecimento global e outros.
Mas um aquecimento de 4°C implica numa elevação do nível do mar de 10 metros a longo prazo, assim como vários impactos imediatos: declínio acelerado da biodiversidade, mais tempestades, ciclones, secas, enchentes, ondas de calor, redução da produtividade agrícola, etc.
Salvar o Capitalismo ou o Clima
A verdade está colocada há décadas. O IPCC é um organismo intergovernamental; governos nacionais deveriam se comprometer com as linhas fundamentais de seus relatórios. Soluções tecnológicas existem e meios financeiros também. Então, por que os governos não dão os passos necessários? Por que eles recomendam “soluções” falsas ou perigosas como gás de xisto, agrocombustíveis, energia nuclear, geoengenharia e outras?
A resposta é simples: porque os governos estão a serviço de multinacionais e bancos que estão travando uma guerra de concorrência pelo lucro máximo, uma guerra que leva as empresas a produzir ainda mais (e, portanto, a consumirem mais recursos), e mais de 80% da energia que consomem vem do carvão, petróleo e gás natural.
Para salvar o clima: 1) 4/5 das reservas conhecidas de combustíveis fósseis devem permanecer no chão; 2) o sistema de energia com base nessas fontes fósseis (e na energia nuclear) deve ser destruído tão rapidamente quanto possível, sem compensação; 3) A produção que for prejudicial, desnecessária ou baseada em obsolescência planeada deve ser abandonada, a fim de se reduzir o consumo de energia e outros recursos; 4) O sistema produtivista/consumista despótico e desigual deve ser substituído por um sistema renovável, eficiente, descentralizado, social e democrático.
É possível deter a catástrofe climática, garantindo uma vida digna para todos. Com uma condição: a adoção de medidas anticapitalistas. Os governos preferem destruir o planeta, colocando em risco a vida de centenas de milhões de pessoas pobres, trabalhadores, camponeses, mulheres e jovens que já são vítimas da mudança climática, e ameaçam a humanidade com o caos da barbárie enquanto traficantes de armas lucram.
O capital considera a natureza e o trabalho como sua propriedade. Não há escolha entre emergência climática e justiça social; é uma e a mesma luta. Vamos nos mobilizar. Para além da COP21, afirmar nossos direitos, desenvolver nossas lutas, construir ações comuns, e construir um movimento de massa planetário.
Todos e Todas à Ação, juntos/as em todas as frentes
As multinacionais fósseis precisa aumentar seu domínio. Vamos detê-las. Mobilizar contra os projetos de infraestrutura que estão ao seu serviço: os novos aeroportos, novos gasodutos, novas autoestradas, bem como a nova loucura do gás de xisto. Denunciar isenções de impostos e outros benefícios oferecidos às empresas marítimas, aéreas e de transporte rodoviário.
Os poderes “desenvolvidos”, que são os principais responsáveis pelo aquecimento global dão as costas aos refugiados criados pelas crises causadas por sua política de dominação e agravadas pelo armamentismo. Rejeitamos os muros e campos de uma Europa-fortaleza, exigimos que aos migrantes climáticos seja dado o direito de asilo.
O agronegócio e a indústria madeireira são responsáveis por 40% das emissões de gases de efeito estufa. Lutamos contra os transgênicos, apoiamos a pequena agricultura orgânica local e a soberania alimentar. Que se construam redes e associações de produtores-consumidores. Apoiamos os direitos dos povos indígenas aos seus recursos e as lutas das mulheres que produzem 80% dos alimentos nos países do Sul.
Estamos testemunhando uma catástrofe de biodiversidade. A sexta extinção, como é conhecida: a maior extinção de espécies desde o desaparecimento dos dinossauros. Entre 40 e 50 por cento de todas as espécies do planeta pode ser extinta em meados do século. Um quarto de todas as espécies de mamíferos estão atualmente em risco de extinção em contraste com uma taxa natural de extinção de apenas uma a cada 700 anos. Organizemo-nos para proteger a biodiversidade.
O direito de todos a um padrão de habitação decente, à água potável, aos transportes, à energia, é bom para o clima e para o emprego. Organizemo-nos para garantir que a água, os transportes e o isolamento e renovação de habitação sejam fornecidos no setor público, sob o controle dos produtores e dos trabalhadores, e que todos são livres no ponto de uso.
A loucura produtivista e consumista em mobiliário, têxteis, eletrônicos, embalagens etc. têm contribuído muito para o aquecimento global. Rejeitemos os produtos que são descartáveis, que tem obsolescência planejada, que não são reparáveis ou não são recicláveis e nos organizemos para apoiar os trabalhadores destes setores, particularmente em países onde os salários são baixos.
Os trabalhadores não devem arcar com os custos da transição. Os trabalhadores ocupados nas indústrias do desperdício, nocivas, poluentes, devem se mobilizar coletivamente para a conversão destas a funções socialmente úteis e ambientalmente responsáveis, sem perda de salário.
O direito ao tempo livre é bom para o clima, para a saúde e para o emprego. Vamos nos mobilizar para que todos possam trabalhar menos e de maneira flexível, pela redução do tempo de trabalho, sem perda de salário, com o recrutamento compensatório e a redução dos ritmos de trabalho.
As multinacionais fósseis e os bancos estão bloqueando a transição. Exigimos o desinvestimento nesses sectores. Que se exproprie o setor privado de energia e finanças, sem indenização ou aquisições. Esta é a condição indispensável para permitir que as comunidades organizem a transição rápida e racionalmente. A energia é uma dádiva da natureza e não deve pertencer a ninguém. Vamos nos mobilizar por um serviço público de energia, descentralizado, sob o controle dos trabalhadores e usuários.
Ecossocialismo ou barbárie
A crise climática confere uma enorme atualidade à contraposição “socialismo ou barbárie”. Uma verdadeira revolução é necessária: temos que mudar tudo! Não só para distribuir de forma igualitária os frutos de nosso trabalho, mas também para decidirmos o que produzir e como produzimos – livre de exageros e resíduos – questionando os papéis que o capitalismo patriarcal dá a homens e mulheres.
É, em suma, uma mudança de civilização, a transição para uma nova sociedade, ecossocialista, ecofeminista, baseada na solidariedade e no respeito ao meio ambiente: uma sociedade onde as principais decisões de gestão, as prioridades de produção e consumo não serão mais feita por um punhado de exploradores, burocratas ou pseudo-especialistas, guiados pelo lucro; mas por todos e todas. Essa mudança não virá através de eleições, mas de nossas lutas. Todos juntos, todas juntas, podemos garanti-la, se quisermos!
Bureau da Quarta Internacional
21 de setembro de 2015
http://www.internationalviewpoint.org/
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Fonte: http://www.insurgencia.org/clima-desastre-a-caminho/
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